Poucos artistas foram tão revolucionários, complexos e contraditórios quanto David Bowie. Ícone da música, da moda e da cultura pop do século 20, o cantor britânico também teve momentos de sua trajetória marcados por polêmicas profundas... entre elas, uma das mais sensíveis: a acusação de flertar com o nazismo durante a década de 1970.
A controvérsia envolve declarações públicas, imagens, um personagem artístico específico e até uma prisão na fronteira. Mas, afinal, David Bowie era nazista? A resposta exige contexto histórico, artístico e humano.
Em meados de 1975 e 1976, David Bowie vivia um período pessoal extremamente delicado. Dependente de cocaína, emocionalmente instável e imerso em isolamento, o artista criou o personagem The Thin White Duke - uma figura fria, aristocrática, vestida de preto e branco, que representava uma espécie de alter ego decadente.
Vale destacar que Bowie posteriormente reconheceu que o Thin White Duke era uma construção artística perigosa, que escapou de seu controle emocional naquele momento.
Em 1976, David Bowie concedeu uma entrevista à revista Playboy, nos Estados Unidos, que se tornaria uma das mais problemáticas de sua carreira. Nela, o cantor afirmou que Adolf Hitler foi “uma das primeiras estrelas do rock”, referindo-se à capacidade do ditador nazista de mobilizar massas por meio de imagem, discurso e encenação.
“Acho que a Grã-Bretanha poderia se beneficiar de um líder fascista. Afinal, o fascismo é realmente nacionalismo. E Hitler foi uma das primeiras estrelas do rock. Ele era incrível na forma como comandava uma audiência", disse ele, de acordo com o g1.
Embora Bowie não tenha elogiado o nazismo como ideologia, a comparação foi considerada profundamente irresponsável e ofensiva, sobretudo pelo simbolismo histórico de Hitler.
Outro episódio que alimentou as acusações ocorreu quando Bowie foi fotografado em Londres, dentro de um carro, fazendo um gesto com o braço que muitos interpretaram como uma saudação nazista. A imagem correu o mundo e gerou revolta imediata.
Na época, o cantor não deu explicações claras. Anos depois, porém, afirmou que o gesto foi mal interpretado e que estava fora de si devido ao consumo excessivo de drogas.
A polêmica ganhou contornos ainda mais graves quando David Bowie foi detido na fronteira entre a Polônia e a então Alemanha Ocidental, em 1976, por portar material com simbologia nazista em sua bagagem.
Segundo reportagem da Rolling Stone Brasil, tratava-se de itens colecionáveis e documentos históricos ligados ao interesse de Bowie por iconografia extrema e regimes autoritários - uma curiosidade que, embora comum entre artistas e historiadores, foi vista com enorme desconfiança diante do contexto. Após averiguação, Bowie foi liberado, e não houve acusação formal.
Anos depois, já sóbrio e distante daquela fase, David Bowie falou abertamente sobre o episódio. Em entrevistas posteriores, reconheceu que suas declarações foram fruto de confusão mental, abuso de drogas e uma desconexão total com a realidade.
O artista afirmou que não era fascista, não simpatizava com o nazismo e classificou aquele período como “o mais sombrio e irresponsável” de sua vida criativa. Bowie também destacou que o Thin White Duke não representava suas convicções pessoais, mas sim um personagem que saiu do controle.
Em 1993, ao NME, ele disse: “Meu interesse pelos nazistas era o fato deles supostamente terem vindo para a Inglaterra para encontrar o Santo Graal antes da Guerra. A ideia de colocar judeus em campos de concentração e a opressão de diferentes raças escapou da minha natureza ferrada naquele momento”.
Não. Não há qualquer evidência histórica ou documental de que David Bowie fosse nazista ou defensor da ideologia. O que existe é um conjunto de declarações infelizes, gestos mal interpretados e decisões artísticas tomadas durante um período de colapso pessoal, que foram amplamente criticadas - inclusive pelo próprio cantor.
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